Por Kika Maia,

Fui convidada a comparecer ao TCA para o evento Mulher com a Palavra, na edição que teve como convidadas: MC Carol, Preta Gil, Elisa Lucinda e com mediação de Rita Batista. Uma iniciativa da Secretaria de Política para Mulheres que estava representada por sua Secretária Olívia Santana. O tema? Feminismo negro, geração tombamento e outros.

Sempre me questiono sobre o que faço aqui e dessa vez não foi diferente… O que teria eu, uma branca, cheia de privilégios, a falar sobre o Feminismo Negro? Nada! Fui lá pra ouvir e aprender. Aprender com todas as convidadas e com tantas mulheres negras, muitas da periferia, que estavam ali.

Já aprendi, por exemplo, que o fato de não ser protagonista de uma luta não me impede de apoiá-la. Eu já entendi que existe um feminismo macro, mas que as mulheres negras, gordas e pobres sofrem muito mais com o machismo do que eu. Há um ano, quando estive em outro evento como empresária, inicialmente me senti inimiga dessas mulheres, uma das algozes que ainda hoje exploram sua força de trabalho. Percebi, então, que elas estavam no seu direito, pedindo uma voz que eu já havia conseguido. O respeito que elas pediam ia além da balança, da gordofobia. Naquele dia entendi que eu tinha que mostrar que devia a elas anos de respeito, que sabia da minha dívida e que devia me retratar pelos anos de sofrimento delas. Anos? Não! Gerações!

O evento começou com o TCA lotado, Elisa Lucinda declamando e arrasando. Logo depois a mediadora Rita Batista chamou todas ao palco. Vocês precisavam sentir a energia que tomou conta do TCA quando a MC Carol entrou. Não tinha como ser diferente, ali ela era a voz de muitas das que estavam na plateia. Uma mulher negra, gorda, que nasceu na periferia já sabendo o que é lutar. Ela representava ali as muitas meninas, jovens mulheres, da geração tombamento. Pra mim era notória a diferença nas falas de quem ajudou a construir o feminismo, Elisa Lucinda e Preta Gil, e de quem nasceu ouvindo a importância do feminismo, MC Carol.

A mulher da geração tombamento chegou falando da sua infância, de como o seu cotidiano se transformou em músicas. A cada letra que ela contextualizava, Rita Batista a incitava a cantar um refrão e com muita simpatia ela deixava a plateia ao delírio, muitas meninas gritavam juntas. Ali eu ouvia um rap que estava longe de diminuir as mulheres, algo que sempre questionei neste estilo musical. Foi lindo de ver!

Também foi lindo ver a humildade de Preta. Em um momento da sua fala ela quis dizer que alguns apresentadores (já processados judicialmente por ela) não tinham o direito de usar da sua gordura para fazer piadas, e usou a palavra “denegrir”, como sinônimo de rebaixar. Uma menina na plateia reagiu: “deNEGRIR não Preta!”. Choque total! Assim, ela humildemente assumiu que por conta dos privilégios de sua criação tem que fazer esse exercício diário de vigília ao racismo, inclusive com sua linguagem. Assumiu nesse momento também que há pouco tempo deixou de usar a palavra mulata, pois descobriu que mulato vinha de mula, como eram vistos os filhos das escravas com seus “benfeitores”.

Inicialmente o fato de ter convidadas gordas, Preta Gil e MC Carol, me chamou atenção para o evento, mas o racismo e o machismo tiveram seu protagonismo. Mais uma vez, foi crucial pra mim perceber a importância de dar palavra para essas mulheres, já empoderadas, que são exemplo para muitas outras que estão por vir. Consegui enxergar um pouco mais. Foi importante pra mim constatar que é difícil para a sociedade aceitar a mudança e conceber, por exemplo, um negro intelectual. Mais ainda… uma mulher, negra, saída da favela, intelectual? Que acinte!

Jana Viscardi e Kika Maia

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Kika Maia é empresaria de moda plus size e formada em Direito pela UCSAL. Mulher que vive o universo feminino e mãe de duas meninas. Admiradora de mulheres que lutaram e lutam pelo empoderamento feminino e igualdade de gênero. Acompanha de perto questões relacionadas à autoestima e visibilidade das mulheres gordas e a revolução que isso vem causando em todo contexto social.