Por Jana Viscardi,

Poderia ser uma piada – sem graça. Poderia ser uma historia antiga, ultrapassada, a que todos responderiam “não é possível que isso tenha acontecido em algum momento da historia!”. Poderia também fazer parte de um episódio do seriado Black Mirror e você reagiria com asco. “Que horror, ainda bem que se trata de ficção”.

Mas não. A cena da maquiadora cobrindo traços de violência contra a mulher em um programa televisivo de fato aconteceu. Em pleno século XXI. No entanto, possivelmente sem sequer saber onde fica o Marrocos, você entenderá a notícia como mais uma barbárie desses países exóticos. “Devem ser muçulmanos, né?”. Com certeza. Que pena para quem mora lá. Para você que não viu, CLIQUE AQUI.

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Neste cenário, há alguns vários problemas. O primeiro deles, a possível xenofobia semimascarada. Essa alusão a um povo distante, bruto, primitivo, essa sociedade da qual você não faz parte e que entra para o imaginário de uma vida triste e distante, bem distante de você. Que engano o seu, quanto engano.

Mas, para além disso, um outro grande e terrível equívoco está justamente nesta crença romantizada de que a violência contra a mulher é um episódio que acontece neste outro lugar, longínquo, distante de você. Que são essas culturas – ou comunidades – diferentes da sua que encobertam e normalizam a violência. Esteja essa comunidade no Marrocos ou no Nordeste de Amaralina.

Você se engana quando pensa que, em seu entorno, a violência contra a mulher não existe. Você se engana quando pensa que “apenas selvagens” agrediriam ou estuprariam uma mulher. Não. São homens como seu pai, seu irmão, como você. É o seu colega de escola, um primo, um tio. Ou todos eles juntos. E eles atacam crianças, bebês, meninas chegando à adolescência. Cansados desses corpos, eles atacam mulheres mais velhas, nas ruas, nos bares, dentro de casa. As mulheres veem seus corpos como ilhas de perigo, em que um homem poderá atracar a qualquer tempo.

E ao supor que a violência só acontece nesse outro lugar, não se discute a violência dentro de casa. Na escola. Entre os amigos. E quem sofre violência não sabe com quem falar, a quem recorrer. Porque a violência começa em casa, no sexo exigido pelo marido. Ou na esquina, quando um sujeito desconhecido resolve te chamar de gostosa e se apropriar de seu corpo com palavras, gestos e olhares. E a violência continua em muitas delegacias, em que se pergunta “mas o que é que uma menina como você estava fazendo naquele lugar?”.

E esses relatos são tão reais e estão tão próximos. Não é preciso ir ao Marrocos, não é preciso se chocar com o que se passou lá. É preciso fazer uso daquele episódio para fortalecer a discussão de como a violência contra a mulher é normalizada, em diferentes níveis e de diferentes formas, no Brasil, em Marrocos, no mundo.

E não basta você falar de números. Ser o homem fofo que acha tudo isso um absurdo. Fazendo paralelo com uma frase de Elisa Lucinda em um texto que fala sobre a questão do racismo, o problema da violência contra a mulher não é um problema das mulheres. É um problema dos homens. E você, macho alfa dessa nação brasileira, deveria não somente ter vergonha da violência causada por vocês e sofrida por nós todos os dias. Você, macho alfa da nação brasileira, deveria repudiar qualquer postura de incitação à violência. Sem fazer mimimi, sem virar os olhinhos.

Eu quero lutar pela minha liberdade. Mas quero que você entenda que o problema é seu. Quem precisa ser enjaulado é você, rei da opressão e da violência, não eu. Eu não quero ter de esconder as marcas da agressão, eu quero que você não me agrida. Porque meu corpo é meu templo, e pertence a mim. Não a você, nem a mais ninguém.

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janaJana Viscardi é doutora em Linguística pela UNICAMP e pela UniFreiburg, na Alemanha. Na linguagem, ela vê o caminho para o entendimento e o empoderamento. Em seu canal “Jana Viscardi”, no Youtube, ela discute e analisa essas formas de empoderamento através da linguagem. Seu mote é, e sempre foi, “Como nos comunicamos importa”.

 

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