Ramon Fontes – doutorando em Literatura e Cultura (UFBA) e pesquisador do NuCuS (Núcleo de Pesquisa e Extensão em Culturas, Gêneros e Sexualidades)

Salvador, 26 de outubro de 2018.

Aproximadamente 50 horas nos separam de uma decisão histórica no Brasil: a eleição presidencial mais dramática para mim, do alto dos meus vinte e oito anos (comecei a votar aos dezesseis). Na frente das pesquisas está um candidato que acredita na violência e no ódio às minorias (segundo a lógica cishétero, branca, cristã e que se acredita “europeia”, principalmente, no sul e sudeste do país) como o caminho possível para “mudar o Brasil, devolver ao país à sua imaginada “ORDEM” e, em nome do “PROGRESSO”, abrir-se sem nenhum pudor para o capital transnacional especulativo, não à toa os símbolos mais movimentados nessa corrida política foram a camisa da seleção de futebol e a bandeira brasileiras.

Do outro lado, ensaiando uma virada no final do segundo tempo, uma candidatura que acredita no caminho democrático (com todas as críticas e autocríticas feitas em campo) como razoavelmente aceitável para diminuição das desigualdades gritantes que existem entre quem está assistindo a peleja do camarote, da arquibancada, de dentro do campo, de quem está fora do estádio (por regras naturalizadas pela lógica citada anteriormente, mesmo assim acreditam no jogo) e daqueles e daquelas que acompanham, “alheiamente”, os rumores que pipocam no “zapzap” (infelizmente, essas pessoas que poderão decidir a partida).

Eu, jovem vivendo com hiv em dois mil e dezoito, escrevo estas linhas em formato de carta e me aproximo do movimento feito por Caio Fernando Abreu, no final da década de 1980 e início da década de 1990, no qual ele narrava seu encontro com o diagnóstico “hiv positivo” e lançava para além dos muros (dos hospitais, dos estádios, das fronteiras familiares, das fronteiras nacionais…) seu grito, seus medos e seus afetos, na esperança de encontrar, quem sabe, uma garrafa com alguma frase de esperança naquele mar redemocratizado.

Ao lembrar do meu corpo exausto, levemente rouco, ansiedade tentando ficar controlada às custas de ansiolítico, textos para entregar, tutoria de curso online pra dar conta, conta bancária zerada, grupos familiares de zapzap com correntes de ódio e bom dia, saídas não diplomáticas de tais grupos (pois neles imperam a defesa do candidato que me quer morto)… Tanta coisa pra dar conta e só consigo ter forças para ler a coletânea de poemas “Tente entender o que tento dizer”, organizada, em 2018, por Ramon Nunes Mello, querido amigo e poeta carioca.

Na trincheira literária organizada pelo Ramones carioca, como o chamo carinhosamente, é possível viajar pelas vozes de mais de noventa pessoas que toparam o desafio de escrever sobre hiv/aids e, de certa forma, resistir ao silêncio cordial e editorial sobre a temática, que impera nas rodas de conversa dessa “era pós-coquetel” sob a incompleta e falsa afirmação: “Ninguém morre mais de aids hoje em dia!”. É acalentador pensar que essas vozes são compostas por pessoas que vivem com o hiv (superpositivos, como me ensinou o querido amigo Marcelo de Trói e a mana Xan Marçal); pessoas que convivem com pessoas soropositivas e não possuem a superpositividade (soronegativas); pessoas sorointerrogativas (que não se testaram para o hiv e, portanto, não sabem o seu status sorológico); pessoas trans, cisheteroaliadas, mulheres negras, idosos, jovens… Uma multidão de vozes que ecoam o grito de “A vida grita. E a luta continua”, numa ginga ritmada para reafirmar a vivacidade daquelas que se calaram pelo golpe assassino da “Tia Sida” ou para se manterem vivas diante do falso “Bom dia com estrelinhas coloridas” da “Tia fascista”, do parente preocupado em restabelecer a ordem que os “esquerdopatas bagunçaram”, da parente evangélica da ala extremista que, do alto de sua catedrática e ilibada formação no curso de História da UNIZAP – Universidade do Zap, lhe acusa de “nazista” porque você só “quer defender seu ponto de vista comunista”… Não podemos perder a ternura, jamais! Por isso mesmo continuamos a escrever, para além de todos os murros que insistem em nos silenciar.

Enquanto o candidato defensor do ódio prega: “O Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, enquanto a parente extremista vocifera: “Jesus esteja convosco!”, a coletânea de Ramon Mello nos diz: “Ele está no meio de nós!”, sendo ameaçado, novamente, sob os olhos desatentos dos Pôncios Pilatos que se isentam de escolher lados; dos gritos ensurdecedores da horda racista, misógina, homolesbotransfóbica e xenófobica que se apropriaram descaradamente do mote anti-petista (refere-se à aversão ao Partido dos Trabalhadores) para validarem suas violências, há tempos recalcadas.

A coletânea está dividida em três eixos: o primeiro que trata da linguagem enquanto potência ou, como diz Deleuze: “o conjunto dos desvios necessários criados a cada vez para revelar vida nas coisas” (as poetas vozes escreventes se debruçam sobre a linguagem para re-velar o quanto “a linguagem é o verdadeiro vírus”); o segundo eixo é dedicado “às vítimas da epidemia”, uma espécie de relembrar a História e a importância das vozes que resistiram antes de nós, mas que não puderam sobreviver até o surgimento dos antiretrovirais (coquetel); o terceiro e último eixo “comporta o corpo, a vida, o cotidiano, ou o tempo e seus desdobramentos”, portanto, mais complexo e abrangente.

Quero, aqui, dar uma visibilidade maior ao segundo eixo…

O candidato que lidera as pesquisas, entre outras coisas absurdas, manifestou em vídeos e entrevistas que as pessoas que vivem com hiv/aids não são problema do Estado Brasileiro. Somos, hoje, aproximadamente 840 mil pessoas vivendo com hiv/aids no Brasil, isso significa que as políticas de saúde até então instituídas fornecem medicamentos para que nós possamos nos manter vivos e vivas. Nesse sentido, quando um provável candidato à cadeira da presidência manifesta publicamente que o Estado não é responsável, ele está declarando publicamente o assassinato, por omissão conivente, de toda essa população que depende do “coquetel” para viver. É impossível não ficar imune ao poema “Buquê”, de autoria de Antonio Cicero, que abre a segunda parte da coletânea…

BUQUÊ

para Sérgio Luz

Ó Sérgio, Sérgio, somos ainda

crianças. Nossas almas são novas.

Não chegamos a adquirir antigas

ciências. Dizem o que destroça

de tempos em tempos nossas crenças

são catástrofes, que nos impedem

de amadurecer. Mas quem se lembra

mesmo ou se importa se, ao que parece,

o que nasceu merece morrer?

Desprezar a morte, amar o doce,

o justo, o belo e o saber: esse é

o buquê. Ontem nasceu o mundo.

Amanhã talvez pereça. Hoje

viva o esquecimento e morra o luto.

(Publicado originalmente no livro A cidade e os livros, Rio de Janeiro: Record, 2002)

Pensar a iminência da morte, legitimada pelo Estado Necropolítico, sentir o medo tomar conta das carnes do seu corpo, perceber sua subjetividade paralisando dia após dia mediante a impossibilidade de poder tomar um coquetel com as amigas, numa tarde de verão baiano, é assustador. Por outro lado, pisciana e macumbeira que sou, acredito nas duplicidades, multiplicidades e nas escritas e vozes menores como possibilidade para enfrentar os tempos difíceis que já se instalaram entre nós.

Denuncio, aqui nesta carta:

os familiares e amigos que se isentam de defender minha vida (sejam BRANCOS como a paz de Oxalá e a respeitada reputação de Jesus, mas não se ANULEM numa escolha que pode decidir sobre a minha vida e a daqueles que vocês dizem amar);

o candidato Jair Bolsonaro por disseminar a violência e o ódio e, também, por sugerir o extermínio conivente das pessoas que vivem com hiv/aids no Brasil (eu desejo que o senhor tenha muita saúde para continuar vendo o quanto podemos resistir, r-existir e sobreviver, apesar de todo o seu ódio);

os apoiadores e apoiadoras do candidato, que, mesmo sabendo dos horrores de uma “história única” e da dívida moral que o Brasil tem para com negros, indígenas, lgbt, mulheres e crianças, ainda assim vão às urnas com sede do nosso sangue para alimentar as suas instituições falidas;

Estamos, hoje, batalhando por imagens e por produção de desejos. Não estamos apenas escolhendo um ou outro candidato, mas sim caminhos e modos de vida que dirão exatamente o que queremos desse território que chamamos Brasil e dessa corporalidade subjetiva que denominamos Humano. Próximo domingo, dia 28 de outubro de 2018, teremos a exposição pública do desejo dessa população falsamente miscigenada e democrática. Não adianta mais esconder: A MÁSCARA DE VOCÊS CAIU! Independente do resultado, eu ANUNCIO: somos uma multidão virulenta e estamos nos replicando de uma forma que vocês não imaginam mais como deter… Isso não é uma ameaça! Isso é um vírus que NUNCA terá cura. Vocês, odiosos muros, perderam e seus postes acabaram de cair, não há mais luz e estamos nos replicando na SUA escuridão farsante. O preço da gasolina pode custar mais caro que o buquê!

Com amor, raiva e gasolina,

Ramon Fontes

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