Veronica Daniela Navarro – dançarina, professora, doutoranda no Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas da UFBA, pesquisadora do NuCuS (Núcleo de Pesquisa e Extensão em Culturas, Gêneros e Sexualidades) e do coletivo Chamada de Mulher.

Com estreia em março deste ano em Salvador, ambientada no século XVIII, com uma trama inspirada no romance Zama, do autor argentino Antonio Di Benedetto, o filme segue os passos de um oficial a serviço da Coroa espanhola, Don Diego de Zama (Daniel Gimenez Cacho), que ambiciona sair da pequena cidade onde está lotado – em Assunção, no Paraguai – e mudar para a mais cosmopolita Buenos Aires. A cada governador que vem e que parte, ele vê sua demanda ignorada, postergada ou menosprezada. É o primeiro trabalho de Lucrecia Martel, que tem como protagonista um homem. Martel é uma cineasta argentina conhecida por seus filmes: La Mujer Sin Cabeza (2008), traduzida para ao português como A mulher sem cabeça, La Niña Santa (2004, traduzida como A menina santa, La Ciénaga (2001), traduzida como O pântano.

A partir do livro Sociología de la imagen, da autora Silvia Rivera Cusicanqui, entendo que enquanto a escritura e os marcos conceituais da ciência social convencional tendem a apagar as vozes subalternas ou a integrá-las numa narrativa monológica de progresso e modernização, a imagem pictórica e a audiovisual reatualizam as forças que dão forma à sociedade, a tempo de organizar o variado e o caótico no conjunto de descrições “densas” e iluminadoras (Cusicanqui, 2010).

Os trabalhos da cineasta se caracterizam por não apostar no roteiro. Antes disso, ela entrega ao espectador/a um montão de coisas, principalmente a imagem, pelas quais pode-se navegar, pensar. Isso pode fazer com que o público trabalhe muito mais a cabeça, e também a memória.

O que nos depara Zama em relação as intersecções de raça, classe e gênero? A cineasta não entrega um roteiro pronto para pensar as interseccionalidades, é justamente através da imagem que enxergo, como espectadora-pesquisadora, duas coisas: a masculinidade branca-colonial e a miscigenação de sangue sobre a exploração dos corpos das “mulheres” negras e indígenas.

A masculinidade é uma categoria construída, estabelecendo socialmente uma forma de ser homem, no modelo homem-branco-heterossexual. A sexualidade de cada pessoa não é intrínseca ou o resultado de ações exclusivas de cada um(a) de nós, mas o resultado do meio em que vivemos. Mesmo antes de nascermos nossa heterossexualidade já nos é imposta, em especial as normas relativas aos gêneros, coisas de meninos, coisas de meninas: roupas, nomes, brinquedos, diferenças nas formas de tratar uns e outros. Caso não sigamos essas normas, seremos submetidos a qualquer tipo de violência física, moral, psíquica. (Colling e Nogueira, 2017).

O filme traz a figura do coronel Zama, um homem heterossexual branco, cuja masculinidade de herói, forte e rico, como a história tem nos contado sobre esses personagens, se vê questionada enquanto mostra um homem que, ao chegar como funcionário na colônia, vai entrando numa situação de vulnerabilidade sexual, social e econômica. Tentando voltar ao conforto do lar (Buenos aires), onde se encontra a família do coronel, Zama mostra-se totalmente insatisfeito com sua condição de vida. Esse homem branco europeu e ‘corretor”, como é chamado, se relaciona com os corpos durante o filme através do que a autora Rita Segato (2014) chama o “olho pornográfico”. Para autora, a colonização traz a forma pornográfica de olhar para o corpo. Coisas que, nas comunidades afro-indígenas, não existiam como tal. Zama, e seu olho pornográfico, se encontra permanentemente atravessado pelas formas com as quais as comunidades indígenas e africanas lidam com a corporeidade. Em vários momentos, ele fica olhando, de maneira clandestina, corpos de mulheres negras e indígenas nuas e, quando descoberto por elas, precisa reforçar o seu lugar “masculino” utilizando a violência física. Provocando através da imagem, Martel reproduz, a partir da fotografia do filme, várias pinturas históricas que retratam de forma mais realista a vida colonial, especificamente o lugar do corpo “exótico” (mulheres no rio, pessoas escravizadas fazendo os trabalhos domésticos e de força, as aldeias indígenas).

Segundo Segato (2014), a masculinidade desenvolvida pelo homem colonizado (racializado) é uma masculinidade inacabada, que tenta reproduzir o modelo branco europeu, mas fracassa porque nem a raça nem a classe o permitem (Segato 2014). Aqui o lugar durante a trama, especificamente na imagem dos homens negros, indígenas e até brancos nascidos na colônia. No filme, é muito visível a miscigenação, os filhos dos espanhóis, por exemplo, do próprio Zama e uma mulher indígena, e do personagem do “oriental”, amigo de Zama, seriam fruto desses violentos encontros sexuais, que colocam os corpos das mulheres racializadas em lugar de objetos sexuais. Que masculinidades são essas então que estão se desenvolvendo nas crianças miscigenadas? Poderíamos designá-las como masculinidades que fracassam ao modelo branco-europeu, mas que se esforçam para reproduzir o modelo patriarcal imposto?

A figura de Vicuña Porto (Matheus Nachtergaele), um bandido que tenciona essa figura de “masculinidade” dos bandidos na história, proporciona ao espetador(a) uma outra forma de pensar essa figura violenta: fenotipicamente magrinho, de estatura pequena, voz leve e que desenvolve uma violência quase inesperada.

As interseccionalidades aparecem, mais uma vez, através das imagens das mulheres brancas, dentro de casa, protegidas, como reprodutoras da raça. E as racializadas (indígenas e negras), como um corpo objeto sexual. O termo mulher então, no contexto colonizado, tem diferentes conotações. Apenas quando se percebe gênero e raça como entretecidos ou fusionados indissoluvelmente podemos realmente ver as mulheres de cor. Isso implica que o termo mulher, em si mesmo, sem especificação da fusão, não tem, ou tem um sentido racista, já que a lógica categorial historicamente tem selecionado somente o grupo dominante, as mulheres burguesas brancas heterossexuais, e tem escondido a brutalização, o abuso, a desumanização que a colonialidade do gênero implica (Lugones, 2014). A heterossexualidade tem sido coerente e duradouramente perversa, violenta, degradante e converteu as pessoas ‘não brancas’ em animais e as mulheres brancas em reprodutoras da Raça (branca) e da Classe (burguesa). Aqui parecem as figuras da mãe indígena do filho do Zama, como esse corpo sexualmente objetivado: a figura da mulher do governador, como aquela branca sexualmente ativa e promotora de encontros sexuais com a possibilidade de escolher com quem e quando ter relações íntimas, com reputação “duvidosa”, como ela mesma coloca.

As imagens dos corpos negros de homens e mulheres, durante o filme, representam essa sexualidade brutalmente imposta pela violência do sistema colonial que questiona nossa ideia de identidade latino-americana enquanto gênero, raça e classe, pensando que essas formas binárias foram impostas de maneira violenta pela colonialidade do poder (Quijano 2005). Por isso que é tão caro para nós, pesquisadoras do gênero, da raça e da classe entendê-las no nosso chão latino-americano, a fim de pensar múltiplas formas de ser e estar no mundo. Zama traz essas infinidades de imagens para pensar nossas interseccionalidades e como elas foram impostas violentamente em nossa história.

Minhas referências foram:

COLLING, Leandro; NOGUEIRA, Gilmaro. Crônicas do CUS: cultura, sexo e gênero. Salvador: Devires, 2017.

LUGONES, Maria. Colonialidad y genero In Tejiendo de otro modo: feminismos, epistemologías y apuestas decoloniales en Abya Yala. Editorial Universidad del Cauca 2014.

QUIJANO, Anibal. “Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina.” In: LANDER, Edgardo (org). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005, p. 107-127.

RIVERA CUSICANQUI, Silvia. Ch’ixinakax utxiwa: una reflexión sobre prácticas y discursos descolonizadores. Buenos Aires: Ed. Tinta Limon, 2010.

SEGATO, Rita Laura. Colonialidad y patriarcado moderno: expansión del frente estatal, modernización, y la vida de las mujeres In Tejiendo de otro modo: feminismos, epistemologías y apuestas decoloniales en Abya Yala. Editorial Universidad del Cauca 2014.

SEGATO Rita Laura: https://www.youtube.com/watch?v=jEBPxDRuS7U

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