Kleber José Fonseca Simões

Há uma frase emblemática e muito poderosa no roteiro do filme Café com Canela, produção da dupla Ary Rosa e Glenda Nicácio. Em certo momento da trama, a personagem Margarida, vivida pela atriz Valdineia Soriano, ao falar sobre a sua experiência com o cinema, afirma: “Um bom filme quer experimentar o espectador e quer ser por ele experimentado”. Para mim, essa frase resume o projeto estético político de um audacioso filme que nos provoca a pensar o lugar da produção cinematográfica negra no atual cenário da cultura brasileira.

Quero, então, começar situando o lugar social do meu paladar. Mas esse lugar começa antes de mim. Minha avó D. Domingas, uma mulher negra retinta, como se denomina quem tem uma coloração de pele negra escura, engravidou do filho da sua patroa, um homem branco. Meu pai, filho dessa união, nasceu negro, mas foi lido como branco por ter pele mais clara e por ser filho de uma família tradicional da minha cidade natal. Meu pai selou sua branquitude com o casamento com uma mulher branca, o que possibilitou diluir, e em muitos momentos negar, a presença de sua mãe em sua vida. Cresci sem ter convivido ou sequer sem saber da existência da minha avó e somente aos 17 anos foi que busquei conhecê-la e pedir um abraço de perdão por tantas violências dirigidas a ela pela minha família.

É desse lugar de fala e também de dores que sinto o aroma do belo filme Café com Canela, não porque ele se situe seu enredo em um drama familiar, mas antes porque ele atinge, com força estética e poética, a vivência das ausências e dos encontros que atravessam as trajetórias das populações negras em nossa sociedade.

As perdas humanas que o filme aborda, seja do filho de Margarida ou a de Adolfo, companheiro do personagem Ivan, ou ainda da avó de Violeta, as quais ocorrem sem que saibamos claramente os motivos dessas mortes, restando-nos apenas a presunção do corrido, suscitou em mim reflexões sobre os processos de perda e luto vividos por mim e minha avó, que, em alguma medida, são experiências lamentavelmente compartilhadas entre várias famílias brasileiras.

Quantxs de nós, falando dos nossos supostos lugares de privilégios, advindos das complexas tramas de negociação interseccionais que operamos em nosso cotidiano, já paramos para refletir sobre as violências que sustentam nossas distinções sociais? Quantxs de nós já refletimos sobre quais os custos sociais deste lugar social da branquitude? Essa produção cinematográfica se dirige a pensar as ausências de nossos entes negros, aqueles que muitas vezes são esquecidos, apagados, eliminados de nossa memória em nome da garantia de nossa branquitude.

Nesse sentido, penso que Café com Canela se situa como um instrumento poderoso na contestação das representações estruturadas a partir de uma narrativa hegemônica de brasilidade sob uma ótica eurocêntrica, a qual estabeleceu como norma a experiência social do homem branco, heterossexual e cristão. O sociólogo Peruano Anibal Quijano nos adverte que a empreitada colonial cunhou a ideia de raça por meio de um discurso da existência de um binarismo situando em termos de inferior/superior correlato a colonizado/colonizador, servindo assim como instrumento de naturalização das desigualdades, exploração e violência.

Nessa sociedade dicotômica, quem não corresponde ao padrão definido pela cultura branca europeia cristã heterossexual restou o lugar social de ser desviante, abjeto e, que, portanto, deve ser excluído do convívio social e também da memória. Conforme afirma Judith Butler, “O abjeto designa aqui precisamente aquelas zonas “inóspitas” e “inabitáveis” da vida social, que são, não obstante, densamente povoadas por aqueles que não gozam do status de sujeito”. (BUTLER, 2000, p. 155)

A abjeção social decorre da criação de “marcadores sociais” nos quais a raça opera uma distinção central entre quem será considerado humano ou não humano. A esse pensamento confluem as afirmações do filósofo camaronês Achille Mbembe quando afirma que o racismo se constitui numa tecnologia que pressupõe a “distribuição da espécie humana em diferentes grupos, a subdivisão da população em subgrupos e o estabelecimento de uma ruptura biológica entre uns e outros” (MBEMBE, 2014, p. 22)

Tendo isso em mente é que reconheço a potência desestabilizadora do filme Café com Canela quando dá visibilidade e incorpora elementos negros em suas construções imagético-discursivas, abrindo espaços para a reorientação de significados de negritude que permeiam nossa sociedade.

Café com Canela produz a subversão das lógicas de atribuição de sentidos de subalternidade às representações da negritude apresentados por parte da cinematografia brasileira. Seu aroma não é somente o da solidão, o de desespero, do desamparo, da dor, tão presentes em algumas narrativas sobre a população negra no Brasil. Esse filme tem um delicioso cheiro de superação, de luta, de enfrentamento, que só é possível de ser vivenciado/a em coletividade, em afetividade, tal como podemos ver nas trajetórias das personagens Violeta e Margarida.

Frente aos processos de silenciamento, apagamento, invisibilidade dos corpos negros numa sociedade estruturada sobre os escombros do passado colonial, os aromas advindos da poética do filme buscam povoar nossas lembranças com corpos negros que resistem aos processos de mortificação e se unem para sobrepujar suas dores com vistas a se inserir como sujeitos de desejo, sujeitos de futuro. E que esse futuro seja tão denso e saboroso como um saboroso Café com Canela.

* Doutorando do Programa Multidisciplinar de Pós-graduação em Cultura e Sociedade, professor Assistente Campus XIV/UNEB, integrante do GT Estudos de Gênero e História da ANPUH-BA e do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Culturas, Gêneros e Sexualidades (NuCuS)

REFERÊNCIAS:

BUTLER, Judith. Corpos que pesam: sobre os limites discursivos do “sexo”. In: LOURO, Guacira Lopes (org.). O corpo educado. Pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2000, p. 155.

MBEMBE, Achille. A questão da raça. In: Crítica da razão negra. Lisboa: Antígona, 2017, p. 25-74.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do Poder, Eurocentrismo e América Latina. In: Colonialidade do Saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latinoamericanas. Edgardo Lander (org). ColecíonSurSur, CLACSO, Ciudad autônoma de Buenos Aires, Argentina. 2005.

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