Por Djalma Thüller

No último dia 30, o ator Armando Babaioff publicou em sua página nas redes sociais que o espetáculo “Tom na fazenda” está concorrendo a melhor espetáculo estrangeiro pela Associação de Críticos de Teatro de Québec, resultado das três apresentações que fez no Festival TransAmériques, em Montreal, em junho de 2018 a  convite do autor da peça, o canadense Michel Marc Bouchard.

Eu assisti a peça em junho de 2017, dentro da programação teatral da Mostra “Todos os Gêneros: Mostra de Arte e Diversidade”, do Itaú Cultural (SP), que leva espetáculos e demais atividades que exploram e discutem o universo LGBTQI+ e outras questões ligadas à identidade de gênero, à sexualidade, ao corpo e à afetividade.

“Tom na fazenda” estreou em março de 2017 no teatro do Oi Futuro Flamengo, contando a história de Tom, um publicitário de Montreal que descobre, no funeral de seu namorado, que a sogra desconhecia o relacionamento dos dois e nem sabia que o filho era gay. Preso em uma fazenda distante, onde mora a família do falecido, o protagonista vai se envolvendo numa trama de neuroses e intrigas que pode colocar sua própria vida em perigo.

Um dos aspectos mais elogiados da encenação de Rodrigo Portela pela crítica especializada foi o embate entre os personagens Tom e Francis, interpretados por Armando Babaioff e Gustavo Vaz, respectivamente, um duelo entre a repulsa e a atração, dirão os críticos, porém, mais do que essa dicotomia, a peça é implacável quando quer dizer que em territórios onde as sexualidades e identidades de gênero localizadas fora da norma cisheterossexual são criminalizadas e culturalmente perseguidas, a fuga é uma estratégia para garantir a sobrevivência dos corpos dissidentes e, longe, as personagens recriam seu estilo de vida próprio, original, reinventando e subvertendo o “cistema”, nos fazendo interrogar

sobre a maneira como somos produzidos como “sujeitos” sujeitados e sobre os meios para escapar a essa “sujeição”. (…) Trata-se de criar “estilos de vida” pelos quais tentamos nos desprender dos modos de ser e de pensar legados pela história ou impostos pelas estruturas sociais. Trata-se de reinventar si mesmo, de se recriar. (ERIBON, Didier. Reflexões sobre a questão gay, 2008, p. 295),

O elogiado embate entre Tom e Francis e a impactante cena do tango reforçam que o gênero não é algo estável ou fixo, verdadeiro ou permanente, mas, antes,  uma estratégia da encenação em criar permeabilidades dentro das estruturas restritivas da dominação masculina e da heterossexualidade compulsória. (BUTLER, 2010, p. 201), projetando a heterossexualidade do segundo como fruto da identificação que implicou em proibição, em renúncia e, portanto, numa perda não sanada, em melancolia, ou, pensando com Paulo Ghiraldelli Jr, “o modo como o corpo carrega gênero e sexo como sendo a sua verdade, como sendo o eu autêntico, denota essa necessidade do melancólico de preservar, em algum lugar, o que foi perdido. (…) Gênero e sexo são, então, tomadas como estruturas melancólicas” (2017).

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